Resenha | “O Poder” é uma corda-bamba entre gostar e odiar
Eu terminei esse livro com a sensação de fundo do poço. Não tem outra expressão que melhor traduziria o que eu senti quando fechei a última página de “O Poder”, de Naomi Alderman, publicado pela Planeta Minotauro. Eu poderia ser mais suave nessa crítica, mas em nenhum momento Naomi me poupou. Ela foi honesta, brutal, visceral. Sendo assim, me vejo obrigada a fazer exatamente o mesmo aqui.
O fato é que O Poder é um livro para se odiar. Ele não foi feito para você deitar na rede e ter uma tarde agradável de leitura, com um bom suco gelado ao seu lado. A história que a autora colocou no mundo é um retrato doloroso de como nós, seres humanos, somos movidos por coisas mesquinhas e perigosas como ter poder.

Por trás da história
Em O Poder, as mulheres ganham aparentemente do nada a habilidade de mexer com a eletricidade. Descargas elétricas são despejadas por adolescentes ao redor do planeta e ninguém consegue entender o porquê. A grande questão agora é que a dinâmica de soberania patriarcal está extremamente ameaçada.
Para entender como essa reviravolta social se propaga, nós acompanhamos cinco personagens por dez anos: Margot, uma prefeita em Cleveland; Joscelyn, sua filha; Allie, uma menina órfã; Roxie, filha de um poderoso gangster inglês; e Tunde, um jornalista nigeriano. Cada um nos apresenta uma faceta de como essa nova condição social afetará a humanidade.
Margot trará uma ponte de como o governo reagiria a essa nova capacidade humana, enquanto Joscelyn precisa lidar e mostrar que nem toda mulher tem o mesmo tipo e intensidade do poder. Já Allie será a porta-voz de uma nova religião, baseada na cristã, mas com uma nova releitura, ganhando adeptos ao redor do mundo. Roxie, por sua vez, inclui o cenário criminoso do tráfico de drogas no livro. Por fim, Tunde viaja por diversos países para projetar os diversos movimentos das mulheres de diferentes culturas, fazendo da curiosidade alheia seu perigoso ganha-pão.

A coragem de desmistificar
Ao escrever esse livro, Alderman parece não ter medo das críticas de qualquer movimento feminista. Ela retrata a desigualdade entre gêneros de uma maneira cruel. Afinal, a crueldade já está entre nós. A única diferença é que o poder físico mudou de mãos. Assim, as perguntas que ficam a partir da premissa dessa história são sobre a possibilidade de um mundo melhor já que uma parcela oprimida agora é mais forte.
Nas páginas de O Poder, nós conhecemos os desdobramentos das possíveis respostas. Alderman desmistifica a ideia de que um mundo governado por mulheres seria melhor (por sermos mais sensíveis, talvez). A autora nos lembra que, por trás de tudo isso, somos humanas e sentimos raiva, desespero, vingança, entre outros sentimentos tão pesados e complicados.
O Poder foi tão poderoso assim?
Agora, focando um pouco mais na escrita em si. O fato é que, mesmo com seis personagens, parece que a autora tinha uma boa premissa e um final impactante, mas não soube bem o que fazer ali pelo meio. Os acontecimentos em si, principalmente aqueles presenciados por Tunde, Roxie e, algumas vezes, Allie – que ficou bastante repetitiva nos anos finais -, eram chocantes, de revirar o estômago e me fizeram duvidar da capacidade humana de fazer o bem. Ainda assim, parecia que aquela história era um grande jornal e seus personagens, muitas vezes, nem precisavam estar ali. Isso me frustrou um pouco.

Embora não tenha mais de 400 páginas, não é um livro que consigamos engolir em poucos dias por esses motivos (de certa forma, já descritos aqui): a falta de conexão com os personagens escolhidos para contar a história, a narração um tanto enfadonha por causa de muitas interrupções e, o mais óbvio, a quantidade de crueldade a cada capítulo. Eu me senti igual ao meme do cachorrinho no bar enquanto ele pega fogo, dizendo “everything is fine”.
Mesmo com essas questões, é um livro singular, que se destaca por originalidade, ousadia e, claro, a avalanche de críticas sociais e ao comportamento humano. Poderia ser melhor? Poderia. Mas pode valer a leitura para algumas pessoas. O meu conselho é apenas que a leitura seja como nossas compras de classe média, parceladas.
Ficha Técnica
O Poder
Autora: Naomi Alderman
Editora: Planeta Minotauro
Páginas: 366
Tradução: Rogério Galindo
