Stranger Things | Sobre a temporada final
Muita gente passou a noite de ano novo em uma companhia inesperada. Ao invés de fogos de artifício, nós estávamos em Hawkins, assistindo o desfecho de Stranger Things, uma série tão querida após quase uma década e cinco temporadas.
Separada em três fases, a temporada final de Stranger Things foi uma montanha-russa de sentimentos na recepção do público – e minha também. Por isso, esperei a conclusão de tudo para vir conversar com vocês.
Como desfecho de uma série tão única, nós fãs tínhamos altas expectativas (algumas bem maiores do que outras, na verdade). E o que recebemos foi um tanto… agridoce?


O Volume Um
Na primeira parte da temporada, Stranger Things entregou uma dinâmica de grupo bem montada, mas repetitiva, com uma parte lutando em Hawkins e outra no Mundo Invertido. Apesar de essa separação sempre ter aparecido nas críticas de todas as temporadas, eu preciso dizer que ela nunca me incomodou muito (a não ser no arco dos russos, lá da 3ª temporada).
Só que algo destoa nesse equilíbrio pré-estabelecido: a Eleven (Millie Bobbie Brown) perde protagonismo e entrega uma performance pouco envolvente. Nisso eu concordo com as críticas. Só que considero como algo esperado devido ao tamanho do elenco principal. Afinal, quanto maior o grupo, mais dividido será o tempo de tela do episódio. Faz sentido?

O plot principal gira em torno do sequestro de Holly, irmã de Mike, pelo Demogorgon a mando de Vecna. Ao tentar encontrá-la nós descobrimos que sequestros como esse será o plano de Vecna para doze crianças de Hawkins. Assim, o volume um todo foca em impedir que isso aconteça. Só que, com Eleven presa no Mundo Invertido, parece uma missão suicida. Aqui entra o ponto alto da temporada: Will ganha poderes. Em uma cena de batalha épica, Will encontra uma forma de puxar os poderes de Vecna para ele e impedir que os Demogorgons matem seus amigos.
Toda a cena foi brilhante. Cada detalhe contribuiu para culminar na cena de Will finalmente mais forte que nunca. Mesmo com a missão fracassada, as crianças levadas por Vecna, nesse momento os Duffer Brothers souberam – e muito bem – causar, gerar histeria, fazer com que o público queira desesperadamente saber o próximo capítulo.
O Volume Dois

Só que tudo desacelera no volume dois. Ao invés de trazer uma crescente de tensão, os irmãos preferiram dar um passo para trás e dar algumas explicações ao público. A grande questão aqui é que o público sentiu que foram explicações demais, ao tempo todo. E eu não consigo descordar. Deu a sensação de um roteiro preguiçoso, que considera a audiência burra.
Will, por exemplo, volta a espiral de se culpar por tudo de ruim que Vecna faz. Hopper continua sendo o pai super protetor que não ouve o que Eleven quer e sente de verdade. Robin, sempre tão carismática, perdeu seu brilho. Personagens que mais chamavam a atenção e o carinho do público estacionaram ou regrediram na sua trajetória. Simplesmente porque era o mais fácil a se fazer já que tinha tanta gente envolvida ali.
Com todas essas críticas, veio também a sensação que o roteiro não entregava a pressa de cada cena, a necessidade que aquilo que estava acontecendo em tela se resolva mais rápido. Muitos discursos de cinco minutos não precisavam existir, outras instruções já compreendidas pelo público não precisavam ser repetidas. Um dos melhores exemplos disso foi Max e Holly finalmente saindo da mente de Henry. Custava falar menos e correr mais? Você estava ali há dois anos, mulher.

Em paralelo, os grupos aqui novamente se dividem para cobrir o máximo de resoluções possíveis, uma vez que Stranger Things não se contentou apenas com um vilão. Temos resquícios do laboratório do Dr. Benner, a base militar da Dra. Kay, Vecna e o sequestro das crianças e o Devorador de Mentes com a colisão entre mundos.
Se existiam tantas problemáticas, por que cargas d’água nós precisamos passar por todos os planos e significados tantas vezes? Ao meu ver, todos os diálogos que demonstravam qualquer avanço no caminho de personagens deveriam ter sido mais equilibrados entre o volume um e dois para que, dessa forma, nós não sentíssemos três episódios tão arrastados.
Mas nem tudo está perdido em Stranger Things

Acredito que eu já tenha deixado bem claro acima qual foi a minha maior concordância com as críticas gerais: falta de dosagem e ritmo. Ainda assim, soube de outras críticas como a cena em que Will se assume como homem gay ter sido desnecessariamente longa, com gente demais, sem reações convincentes, sem motivo real para ter acontecido, entre outras coisas. Eu discordo. Eu achei a cena perfeita. O maior medo de Will era a rejeição daqueles quem ele amava e essa era a maior arma de Vecna contra ele. Ao se abrir para todos e ser acolhido, não teria mais nenhum obstáculo claro para Will conseguir acessar os poderes do vilão.
Em soma, uma das maiores críticas foi que os criadores não matavam nenhum dos personagens principais, somente secundários e poucos. E o que é que tem? Se você começou a assistir Stranger Things achando que era Game of Thrones, meu amigo, streaming errado. A proposta principal da série é a nostalgia dos anos 80, certo? Os filmes dos anos 80 passavam a sensação de bem vencer o mal, de amizade e lealdade, de felizes para sempre, mesmo após todas as provações. Esse lado de Stranger Things é algo a ser celebrado e eu achei que os Duffer Brothers fizeram isso absurdamente bem.
O último episódio

Aqui chegamos no embate final. O episódio de duas horas encerrou uma jornada de dez anos anos-luz melhor do que o volume dois. Eles entregaram ação, drama, comédia, tudo na medida certa. E eu preciso ressaltar aqui como Jamie Campell Bower foi espetacular na cena em que Henry finalmente entra na caverna e confronta sua pior lembrança, aquela que lhe dá mais medo. Ao conversar com Will na sua mente, Henry percebe que para ele é tarde demais e um arco de redenção não cabe mais na história, mas pelo menos você entenderá o que realmente aconteceu.
Então, qual foi o único defeito? Embora Henry tenha respondido um pouco sobre sua origem, tivemos várias perguntas sem respostas, os famosos furos de roteiro. Como Max se forma junto a todos depois de passar dois anos em coma? Qual a relação da Joyce, Hopper e a peça com Henry? Os militares sumiram do nada após Eleven desaparecer com o Mundo Invertido? O que aconteceu com o experimento nas mulheres grávidas?

Muitas respostas viriam só através da peça da Broadway. Contudo, o mundo todo não tem como assistir uma peça em Nova York com a mesma facilidade do controle remoto da TV da sala, não é?
Apesar das perguntas sem resposta, somadas a um final aberto e esperançoso para Eleven, o capítulo final de Stranger Things acalentou nossos corações com um epílogo que nos mostrou aquele sentimento peculiar do cinema dos anos 80: o felizes para sempre clichê que nós tendemos a ridicularizar tanto nos dias de hoje (infelizmente).
Veredito

A verdade é que ninguém vai conseguir agradar o mundo inteiro por igual. Em Stranger Things, os Duffer Brothers criaram uma história envolvente, instigante e encantadora do início ao fim. A temporada final tem sim, seus defeitos, mas de jeito nenhum pode ser considerada como um encerramento horroroso. Os personagens que nós aprendemos a adorar receberam um desfecho bem legal. E nós, a sensação de bem vencendo o mal.
Acredito que Stranger Things é uma série que entra com louvor na história da cultura pop como uma obra muito bem trabalhada e viciante.
Ficha Técnica

Elenco:
Millie Bobby Brown, Winona Ryder, Finn Wolfhard, Noah Schnapp, Caleb McLaughlin, Sadie Sink, Gaten Matarazzo, Joey Keery, David Harbour, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Jamie Campbell Bower
Criado por: Duffer Bothers
Onde assistir: Netflix
Título original: Stranger Things


