Crítica | O Agente Secreto, nosso orgulho nacional
Desde o Festival de Cannes, O Agente Secreto, mais novo filme do diretor Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Wagner Moura, vem chamando a atenção. E chamou tão bem que recentemente nós levamos o Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, Wagner Moura conquistou o prêmio de Melhor Ator e ainda tínhamos uma indicação de Melhor Filme de Drama.
A história do professor universitário Marcelo, que depois de um bom tempo, retorna a sua casa, Recife, para rever seu filho só fomenta o orgulho de ser brasileiro de toda a população.

Ele se passa em um dos períodos mais sombrios da nossa história e vem transformando a contemporaneidade. Eu poderia colocar mais da história do filme aqui, no entanto, acho que se eu fizer isso, posso estragar a experiência de vocês. O Agente Secreto é um filme quebra-cabeça, peça por peça, você vai descobrindo o que levou Marcelo a sair de lá e a voltar. Por isso, vamos partir somente para o que eu achei, ok?
→ Cinema nordestino: mágico e pragmático
Quando a gente vive no Rio de Janeiro ou em São Paulo, tende a achar que só nós existimos nesse Brasilzão. Parece que não tem mais ninguém ou nada diferente de nós. A TV mostrou muito mais o Sudeste por tanto tempo, o suficiente para adentrar o imaginário do povo (e dos gringos) do que é o Brasil.
Uma ideia tão pequena, tão limitada.
O cinema nordestino através das últimas décadas se mostrou influente, e trouxe uma nova roupagem para a identidade nacional, expandindo o conceito de brasileiro.

Em O Agente Secreto, assim como em outros filmes de Kleber Mendonça Filho, o público conhece a magia daquele traço cultural que acredita em lendas e fofocas bem espalhafatosas, enquanto o dia a dia pode se mostrar duro e objetivo. Nesse filme em específico, nós vemos uma perna pulante se contrapor a uma pessoa jurada de morte no meio da ditadura militar. E é um equilíbrio incrível de se assistir.
→ O Agente Secreto: um filme que fala tão pouco e tanto ao mesmo tempo
O roteiro de Kleber Mendonça Filho pode não conter grandes discursos ou monólogos à la Quentin Tarantino, com seu “walk and talk”, mas ele impacta tanto quanto ou mais. O Agente Secreto tem conversas cotidianas veladas de duplo sentido e regionalismos, além de uma combinação poderosa com um elenco talentoso (até mesmo aqueles que nem eram atores antes foram primorosos).
Assim como um roteiro inteligente, o filme possui uma atmosfera tão imersiva que eu, nascida em 1994, me senti na década de 1970, com seus carros de placas de duas letras e quatro números. A atenção aos detalhes que Thales Junqueira (diretor de arte e designer de produção) e Rita Azevedo Gomes (figurinista) despejaram nesse filme não acontece com tanto zelo tão fácil assim.

→ Wagner Moura: atuação sutil, mas poderosa
Que Wagner Moura sempre foi um ator excepcional, o Brasil inteiro sabe, não importa a região. O baiano, no entanto, conquistou os gringos estadunidenses recentemente, começando em Narcos, lá em 2015, e chegando mais recentemente em Ladrões de Drogas e, claro, O Agente Secreto. E agora tem uma indicação ao Oscar!
Há uma razão muito forte por trás desse reconhecimento para Marcelo, personagem do ator no filme: ele entregou uma atuação tão sutil, detalhista, genuína, que o protagonista pode ter sido muito bem seu vizinho. A delicadeza e a assertividade que Wagner Moura coloca na sua atuação nesse filme são absurdas. Gringos e brazucas, deem todos os prêmios possíveis para esse cara. Ele mais que merece.

→ Veredito: um clássico (inter)nacional instantâneo
O Agente Secreto vem conquistando o mundo e eu não fui nada contra o movimento. Na verdade, entro nele com muita felicidade de ver um filme tão nosso, tão brasileiro receber tanto reconhecimento e carinho. Vejam O Agente Secreto e sintam tudo isso também.
Imagens: VITRINE FILMES, MK2 Films, MK Productions, CinemaScópio e Arte France Cinéma.
Ficha Técnica

Elenco:
Wagner Moura, Maria Fernanda Candido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Tania Mara
Dirigido por: Kleber Mendonça Filho
Onde assistir: Cinema


